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Diabetes fora de controle

Valquiria Lopes
Correio Brasiliense

Em três anos, o número de brasileiros diagnosticados com a doença cresceu 76%. A falta de informações sobre os fatores que desencadeiam o problema e hábitos de vida pouco saudáveis estão entre as razões desse aumento

São Paulo e Belo Horizonte — Os hábitos alimentares inadequados, a falta de atividade física e o tabagismo estão fazendo o exército de diabéticos aumentar em proporções epidêmicas no Brasil. O número de pessoas que têm a doença no país já supera, inclusive, as previsões feitas há dois anos para 2030, quando se esperava ter 12,7 milhões de diabéticos. Em 2010, o total de doentes era de 7,6 milhões. Em três anos, pulou para 13,4 milhões, sendo 90% deles com a forma adquirida do problema, o chamado diabetes tipo 2, que tem relação direta com o estilo de vida.

O desconhecimento sobra as formar de prever a doença é generalizado entre os brasileiros. A grande maioria 87% ainda acredita que evitar muito açúcar é a principal forma de combater o diabetes, desconsiderando fatores também importantes, como as práticas saudáveis de alimentação e mudanças do estilo de vida. Os dados fazem parte da pesquisa Diabetes: mude seus hábitos, que indica também que 23% dos brasileiros nunca fizeram algum teste na vida para o diagnóstico da doença Entre os que se arriscam a classificar a doença, um terço não sabe identificar qual tipo de diabetes tem.

Para o estudo, divulgado na semana passada pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope), foram entrevistadas 1.106 pessoas em Belo Horizonte, Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo, Recife e Porto Alegre. Desse universo, 9% se declararam diabéticas, número inferior à média nacional, que é de 12%. Quarenta e oito por cento dos participantes tinham entre 18 e 39 anos e 52%, mais de 40 anos. Quarenta e seis por cento eram homens. As entrevistas foram feitas em setembro.

Com o cenário atual, o Brasil passou de quinto para o quarto país do mundo em número de diabéticos, atrás apenas da China (92,3 milhões), da Índia (62 milhões) e dos Estados Unidos (26,1 milhões).“O diabetes está em expansão no mundo todo. E a população doente pode ser ainda maior, já que muitos ainda não têm o diagnóstico”, afirma o presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), Balduino Tschiedel. Ele alerta para a necessidade de mudança de vida tanto para quem tem a doença quanto para quem é saudável.

“As pessoas ainda não se deram conta de que a mudança do estilo de vida é o grande instrumento para prevenção e controle”, diz. Dados da SBD mostram esse quadro. Pelo menos 80% dos diabéticos tipo 2 têm sobrepeso ou obesidade. Desses, apenas 26,8% estão com a doença controlada. No tipo 1, quando a enfermidade é detectada na infância ou na adolescência por insuficiência na produção de insulina, 10,4% dos pacientes mantêm os índices de glicose controlados.

“Queremos chacoalhar as pessoas para o fato de que atividade física regular, a alimentação balanceada e a interrupção do fumo são alguns dos fatores primordiais para prevenção do diabetes”, garante o vice-presidente da SBD, o endocrinologista Luiz Turatti. De acordo com a pesquisa do Ibope, 72% dos entrevistados não relacionaram o tabagismo como um dos fatores de risco para o diabetes ou mesmo para o agravamento da doença. E apenas 28% deles fizeram a ligação da prática regular de atividade física com o controle da doença.

Ao serem perguntados sobre alimentação, um dado chamou a atenção na pesquisa: 47% dos entrevistados responderam não ingerir frutas e vegetais diariamente. A maioria dos entrevistados, 51%, estava com sobrepeso ou obeso.

Conscientização

Até o fim do ano, a Sociedade Brasileira de Diabetes trabalhará em uma campanha para esclarecer sobre os riscos, a prevenção e os cuidados com a doença. “Além de informar, queremos desmitificar o diabetes e mostrar como é possível tratá-lo com a dobradinha medicamentos e vida saudável. Não é preciso ter medo dele e sim saber conviver com o problema”, afirma Turatti.

O diabetes, hoje, mata mais que o trânsito e quatro vezes mais que a Aids. Entre 2000 e 2010, 470 mil pessoas no país perderam a vida em consequência das complicações da doença metabólica. Luiz Turatti chama atenção ainda para a precocidade dela. “Entre os diabéticos, a grande maioria está nas faixas acima de 40 anos. Mas vale lembrar que esse cenário está mudando rapidamente. No Brasil, o número de portadores de diabetes mais jovens, dos 30 aos 40 anos, vem aumentando a cada ano”, afirma o endocrinologista.

* A repórter viajou a convite da Sociedade Brasileira de Diabetes

Definição

* Diabetes é uma doença metabólica caracterizada pela hiperglicemia (aumento de glicose no sangue). A glicose, um tipo de açúcar, é fonte de energia para o corpo desde que esteja no interior das células. A insulina, um hormônio produzido no pâncreas, é que promove essa entrada da glicose nas células. O diabetes é resultado de uma falha na produção ou na ação da insulina. Sem ela, a glicose não entra nas células e se acumula no sangue.

* A insulina é essencial também no metabolismo de carboidratos, na síntese de proteínas e no armazenamento das gorduras. Quando o pâncreas deixa de produzi-la em quantidades ideais, ela precisa ser “reposta”. São duas as opções, com início de ação, pico de ação e duração do efeito diferentes. A seleção da insulina mais apropriada ou a combinação dos tipos depende dos hábitos, da resposta de cada paciente e das condições do diabetes.

Tipos menos comuns

* Diabetes gestacional, que é decorrente de gravidez ou causada por alcoolismo; pancreatite; doenças genéticas; medicamentos como corticoides e quimioterápicos; e doenças endócrinas.

Sintomas

* Apetite aumentado
* Urina aumentada
* Sede aumentada
* Perda de peso
* Fraqueza
* Fadiga
* Visão embaçada

Diagnóstico

* O exame de sangue glicemia em jejum dá maior ou igual a 126mg/dl e glicemia maior ou igual a 200mg/dl duas horas depois da ingestão de 75g de glicose oral. O nível plasmático de glicose aleatória acima de 200mg/dl associado a sinais e sintomas típicos de diabetes também é usado no diagnóstico.

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